00:00
Qual é a postura?
00:01
A postura é, uma pessoa começa decente e de repente já está com os pés assim. É esta postura? É assim. I'll tell you what freedom is to me.
00:08
No fear.
00:16
Here I stand. One girl among many.
00:21
Olá, eu sou Inês Lopes Gonçalves e este é o Não Mandas em Mim, um podcast onde os meus convidados falam sobre liberdade de escolhas, rebeldias e desobediências. Em geral, bem-vindos Diogo Batáguas e Manuel Cardoso.
00:33
Olá, muito obrigado.
00:35
Como é que vocês se conheceram?
00:37
Num curso.
00:38
É verdade. Num curso de... De comédia?
00:43
Deem a mão também, por favor. Parecia que estávamos a confirmar-se, mas que é evidente, não há bem uma dúvida.
00:48
Deve haver aqui duas versões de... 25 de outubro de 2012.
00:53
Era o quê?
00:54
Sim, conhecemos a 25 de outubro de 2012.
00:56
Estás a inventar isso?
00:57
Não, não, é certo.
00:58
Como é que tu sabes essa data?
01:00
Há uma série de datas sobretudo mais importantes que eu decoro.
01:04
O que é que foi importante para ti, o curso, ou o início de uma amizade com o Diogo?
01:07
Foi a amizade. Foi as duas coisas, exatamente. Conhecemos-nos no curso de escrita ministrado por Rui Sinal de Cores, em 2012, e depois criámos em conjunto com os restantes elementos, os alumni do curso, um grupo de humor.
01:25
Foi aí que vem o Boomerang?
01:26
Não, não, não. Ah, muito antes? Coma de IPEC, ou seja, bem mais obscuro.
01:30
Sim, sim. Não teve aquela coisa do sucesso.
01:34
Não teve. Não foi fácil, foi mais porque nós estávamos a começar todos interessados em fazer stand-up com a medida na altura.
01:40
Ok.
01:40
Que idade tinham? Vocês não têm a mesma idade, mas tu...
01:43
Eu tinha 18. Eu tinha mais 9.
01:45
Ok.
01:46
Depois tinhas 27. Ou seja, esta amizade é um pouco grooming da parte do Diogo.
01:53
Sim.
01:54
E portanto, conhecem-se nesse curso e ficaram amigos logo.
01:58
Sim, portanto, nós imediatamente a seguir agora o curso, criámos este grupo, o único objetivo era fazer noites stand-up semanais, depois tínhamos uma página no Facebook, quando o Facebook era o sítio onde o humor ia parar, e...
02:15
E pronto, isto durou para aí três anos, não é?
02:19
Sim, por várias temporadas. Porque aí não havia bem noites de stand-up como há hoje em dia. Então nós, para fazer stand-up, tínhamos que organizar as nossas próprias datas e para testar o nosso novo material. O nosso material novo, mesmo novo, não estávamos a começar. Não era para refazer, era para começarmos a fazer stand-up. O material era novo, sim. Sim. Tínhamos que organizar as nossas noites e na altura era mais fácil criar-se uma identidade de grupo do que simplesmente abrir-nos uma... uma noite de stand-up nunca sem, com um bar. Então se fôssemos os comedy pack, era uma espécie de uma identidade que mais facilmente... Em coletivo, a coisa... Juntos somos mais fortes. E como éramos sete, e o sítio onde nós atuávamos, leva para aí 40 pessoas, se cada um trouxesse dois ou três amigos... Já estavam a ganhar.
02:59
O que é que manda na vossa amizade? No sentido em que o que é que mais... São assim... Estão sempre a gozar um com o outro? Qual é a dinâmica aqui?
03:08
Nós, portanto, nós mercantilizamos a nossa amizade, uma vez que temos um podcast com o Carlos Coutinho Villene. Monetizam, como agora se diz, não é?
03:16
Exato.
03:16
Já que somos amigos. Portanto, nós até, pelo menos, ou seja, vamos estando juntos fora dali, mas como agora, semanalmente, temos um encontro marcado, eu não sinto uma grande necessidade de marcar coisas com o Diogo, uma vez que aquilo não tem nada diferente.
03:34
No fundo, dão-se por garantidos nesta fase da vossa... Acho que é uma boa fase das relações.
03:38
É quando as pessoas sentem que estão lá uma para a outra.
03:41
Mas o que é que... Faço a pergunta aos dois.
03:46
Um e outro são bons para ligar quando vocês precisam de quê?
03:50
É aquele pneu das três da manhã, é para emprestar dinheiro, é um conselho sobre a vida.
03:56
O que é que tu achas que o Diogo te pode ser útil?
03:59
É muito boa coisa. Pois, nós não somos assim tão amigos. Não é isso que estamos aqui a perceber, não é?
04:08
Sim, claro. Mas atenção, nós não somos todos assim tão amigos. Nós temos que terapia de amizade aqui.
04:11
Nós temos uma amizade clássica mais tóxico. Sim, sim.
04:15
Não somos assim tanto sobre o outro. O que é que é uma amizade clássica masculina?
04:20
Então, é baseada no convívio em torno do abuso de substâncias. Não é que seja muito comum, mas às vezes tem essa género. Ok. E que, portanto, há uma grande química na superficialidade. que não é de descurar. Portanto, é difícil ter química na superficialidade. Mas com algumas horas de convívio, depois lá se pode afunilar para temas mais íntimos.
04:47
E tornarem-se até vulneráveis, quem sabe?
04:49
Sim, mas já somos vulneráveis um com o outro. Já se choraram abraçados? Em 12 anos já terá conhecido. Chorar...
04:56
Não, mas...
04:58
Chorar não, pelo amor de Deus.
05:00
Confessável, inconfessável. Sim, já teremos feito algumas...
05:04
Vocês foram jovens que deram muito trabalho aos vossos pais e professores, quer dizer, tu confessaste, não, falaste sobre isso recentemente, no Alta Definição, que gamaste uma escola, pronto, o Portugal ficou a saber dessa, mas foi assim... Por causa é muito engraçado, estava a pensar nisso, que...
05:28
não há muitas entrevistas vossas vocês têm o vosso podcast e tudo mais mas entrevistas sobre vocês e depois eu sinto que as entrevistas são sempre a entrevista da entrevista que é uma pessoa vai ao Daniel Oliveira conta tipo aquelas coisas a próxima pessoa que vai preparar uma entrevista convosco vai ouvir e depois assim portanto tu serás o gajo que gamou a escola não estava a contar com isso não era essa a minha ideia Mas, voltando, eram miúdos, muito desobedientes, rebeldes, faziam muita asneira?
06:02
Eu acho que, estranhamente, talvez Manel...
06:06
seja mais mal comportado do que eu. Achas? Não.
06:13
Tu enganas muito. Tu é que enganas muito. Tu tens esta forma de te apresentar publicamente de Gabiru, mas que contrasta com as tuas imagens candidas de infância que mostram que eras um exemplo. Eras um menino exemplar. Eu fui exemplar até à primeira classe.
06:33
Tive uma primeira classe onde era muito... Até aos seis não está mal. Até aos seis não está mal. Como é que uma pessoa pode ser exemplo lá no infantário? Está bem, não arranjava problemas, não fazia... E o que é que aconteceu depois? Na segunda classe, comecei a fugir das aulas para jogar a bola e fazer parvoices.
06:54
Que género de previso é que se pode fazer com oito anos? E depois também tinha... Fumar?
06:59
Não, não. Ia-me embora. Não queria lá. Não estavas para aquilo? Sim, antes íamos a um grupinho, de vez em quando íamos fugindo à vez das aulas para ir jogar à bola e, portanto, também não gostava dessa parte.
07:10
Mas de resto não foste assim muito... Não foste dado assim a grandes maluquices.
07:15
Não, pá, eu não tinha muito... Eu nunca gostei muito da parte de me concentrar em coisas. E, pronto, o percurso escolar tende a obrigar-te...
07:22
A teres que estar concentrado, certo?
07:24
E eu nunca gostei muito disso. Então tendo de ir para... Para algum... Então é um mau comportamento daqueles de delinquência. Mas eu fiquei a ser suspenso, com alguma qualidade.
07:35
Tenho uma suspensão no currículo.
07:36
Tenho uma suspensão no currículo. Três dias que fui trabalhar para a fábrica do meu pai, que é para aprenderes, sabes?
07:41
O que é que fizeste para ser suspenso?
07:42
Lá está. Saía muito para a rua, por mau comportamento. Mas é mau comportamento de falar e de não ter conversa. Era o quê? Piedolas na sala? Piedolas, um bocadinho e tal. E tive realmente uma que não foi boa para... para mim, que foi, estava realmente numa converseta, durante um teste, E a professora de matemática mandou-me para rolar ao meio do teste, anulando-me assim o teste. E eu amarrotei o teste e não me... Ah é? E aí tirei o teste ao Calhas para a frente e acertou-lhe na cabeça. Acertou-lhe.
08:13
Um teste também não aleija?
08:14
Não aleija, não aleijou, atenção. Mas também não era para acertar. Foi aqui uma coisa parva de atirar uma bola do papel que caiu a acertar na cabeça da professora, que era a diretora de turma. Isso não redundou em expulsão? Redundou.
08:25
Foi suspenso. Só suspenso.
08:28
A Manela achou o castigo pouco grave?
08:30
Sim, sim. Na minha Escola de Autoria Arredondada em convite a sair. Era.
08:34
Mas também não foi assim tão grave.
08:37
Tu estudaste no Colégio Moderno.
08:38
É verdade.
08:39
Um sítio com muitas regras, poucas regras. Andava tudo na linha.
08:44
Havia bastantes regras. Ou seja, o Colégio Moderno, que as pessoas não sabem, mas é da propriedade da família Soares, é um dos poucos... colégios que não é religioso.
09:00
E da família Soares, quando dizemos Soares, dá para é Mário Soares.
09:02
Exato, exato. Ia ser só uma família de Soares. Não do Tiquinho. Sim, do Tiquinho Soares. Exato, do Tiquinho Soares. E, portanto, apesar de não era um colégio religioso, a maior parte dos colégios são...
09:15
são religiosos e aquilo não era, portanto não havia esse estereótipo do colégio em que é preciso andar com cuidado para não ser castigado, mas havia, lá está, Quando os professores entravam na sala de aula, tínhamos que nos levantar. Ok. E, lá sei, um comportamento desse redundaria num convite.
09:42
Na tua escola eras poluição.
09:43
Um convite a sair, acho eu. Um papel na cabeça.
09:47
Um papel na cabeça.
09:49
Mas na testa é... Não sei se é bem na testa, sei que não puxaste, já sabes. Sei que foi na...
09:53
o ato de atirar em si, não é? Pronto. E tu eras humilde, respeitador, calminho, pouco rebelde, pouco conversador.
10:01
Não, era conversador. Eu era, eu acho que, portanto, eu não fui educado com regras muito severas pela parte dos meus pais. Na escola havia mais regras que eu tinha de cumprir e às vezes essa diferença notava-se.
10:18
Mas sobretudo eu faltava muito às aulas, não...
10:23
Para fazer o quê?
10:25
O que é que te interessava mais do que ir às aulas?
10:27
Para não ir às aulas só. O interesse mesmo...
10:30
Não era para ir ao cinema, nem para ficar a jogar matriques?
10:32
Não, não. Não tinha essa vida social logo. Mas, sim, distração e, sobretudo, fazer coisas. Ou seja, estar na aula a rabiscar outras coisas estando completamente fora. Mas ia tentando cumprir os mínimos. Era tentar que no teste tivesse boas notas para não reparar e não ser valorizado.
10:58
No fundo estavas a pôr créditos na máquina para poder usar... E altercações com professores?
11:04
Papéis na cabeça?
11:06
Não, eu fui para a rua algumas vezes, mas lá está, é o colégio moderno, um colégio muito ligado à literatura. David Morão Ferreira foi lá aluno, outros autores foram lá professores.
11:19
E, portanto, a ir para a rua tinha outros critérios. Por exemplo, a primeira vez fui para a rua porque disse que não estava para ler o Amor de Pradição. Não estou para ler o Amor de Pradição. Não estou para ler o Amor de Pradição. É um super rebelde. É de respeitar Camilo e, de facto, fui para a rua. E essa era a rua que existia lá.
11:39
Foi a tua grande desobediência.
11:43
Sim, houve uma vez, não foi bem desobediência, eu acho que o momento de maior glória que eu tive, incluindo tudo o que posso ter feito a nível profissional, foi no 12º ano, porque por rebeldia anulei a disciplina de História, porque eu gostava muito de História. Ok. Era a minha instituína favorita. Eu tinha uma professora no décimo primeiro que era excelente e no décimo segundo foi uma professora que dava a história de uma forma menos interessante e eu os interessei-me. E no primeiro teste, apesar de eu achar que não merecer, tive oito em vinte. E então, de orgulho ferido, eu decidi eu vou anular esta disciplina. e eu irei apenas ao exame e ficarei com a nota que tive no exame, e depois no exame tive 19,3, a melhor nota de toda a turma, ou seja, concluindo que afinal a professora não a importava na formação dos seus alunos porque bastava estar em casa a estudar para o exame, e passei junto à pauta das notas do exame, e quando na minha cabeça a música Many Men, Wish Death Upon Me, como quem tem a sua grande... Victoria Gangster da vida.
12:48
Por isso é que eu sou o Dread Nerd.
12:50
Dread Nerd, muito bom.
12:52
Fiquei muito curiosa com aquela questão do início de te lembrares das datas. Isso acontece com muitas coisas. O que é que achas que... Porquê que te lembras de... É uma coisa involuntária?
13:04
Queres fazer um diagnóstico?
13:05
Não, não, não. Exato, eu aqui com a caneta na mão. Desde quando é que...
13:09
Não sei, eu sei, eu esqueço-me do que me disseram há um minuto e recordo datas durante décadas. Isso dá jeito às vezes para o nosso trabalho, ter essa...
13:21
envias-me muito essa capacidade.
13:22
Essa memória de alguém disse uma coisa em janeiro de 2002.
13:28
E ele sabe que era uma quarta-feira e estava solo.
13:30
Aqui há dias de ano passado. Estávamos a trabalhar no europeu e estávamos a jantar num restaurante qualquer em Borrum e Manel repara que eu estou ligeiramente desconfortável à mesa, porque estou assim.
13:47
Estavas inquieto.
13:47
Estava inquieto com algo que me estava a afetar e Manoel Cardoso, do nada, percebeu, tu não tens nada para beber, pois não.
14:00
Porque uma vez ao Manel, em 2014, disse-lhe que não conseguia comer sem beber. Não consigo ter nem que seja um copo de água, um sumo, uma pequena qualquer. Tenho que estar um líquido na mesa para eu conseguir comer, porque tenho que estar a acompanhar. E ele não se esqueceu. Não se esqueceu. A primeira vez que eu faço assim, meio com um jogar de não estou confortável, associou imediatamente aquele jogar, percebendo que na mesa não estava um copo cheio, E disse, ah, pois é, o Diogo fica assim quando não tem nada para dizer. Um amigo sensível?
14:34
Exato. Como é que isso passou para o teu amigo? Um amigo sensível era, já estavas a pedir uma jola para o teu amigo.
14:39
Isso é que em dois segundos conseguiu fazer as contas todas e depois buscar as conversas todas que tivemos, perceber que aquele desconforto... Na cabeça. Daquilo e perceber que eu realmente não tinha... E estava certo. É de malucos.
14:51
Cresceste com mais liberdade no subúrbio, tu cresceste em Meimartins e depois estavas na Margem Sul, ou na cidade, o que é que diria?
14:59
É pá, só cresci em subúrbios, não é? Eu cresci nos dois. Pois é, tu tens de ir para a troca.
15:03
Eu tenho um período muito curto em Correios.
15:10
Mas eu... Eu acho que, eu não sei, na verdade eu tinha 12, essa pergunta aplica-se mais aos anos em que uma pessoa já tem uma vida social. Certo. E eu gostei de crescer na cidade no sentido da liberdade de ir a pé para um sítio, apanhar o metro e tal, que acho que às vezes, independentemente da...
15:35
da classe social, quem vive em sítios em que se tem que deslocar só de carro, ou que os pais têm que ir buscar para ir a algum lado.
15:41
Sim, era mais essa lógica, porque se calhar menos mobilidade, mas ao mesmo tempo, se calhar, para quem está num sítio, como por exemplo, como tu davas, podes ter mais liberdade de andar mais na rua, se calhar, e ter mais espaço para...
15:57
Quando me mudei, em memortiz não, porque aí estava, era mesmo... Era um subúrbio clássico de chegar a casa de comboio, ir para casa e de manhã... Qualquer coisa lógica do dormitório. Na sobreda eu vivia já numa praceta onde os putos brincavam na rua, jogavam à bola nas traseiras de um prédio e a minha escola era também a distância a pé da minha casa, nós íamos todos os dias...
16:19
Eu ouvia a campainha e saía de casa. Íamos a correr atrasados, porque eu ouvia e a campainha da minha escola era daquelas da bombeira, sabe?
16:27
Que é aquela coisa de dar logo vontade num tipo ir para as aulas? Que bom, vou aprender.
16:32
Eu vim almoçar a casa, com 11 anos, ia almoçar a casa a pé com os meus amigos, íamos para lá, jogávamos um bocado Nintendo, uma bocadinha qualquer, e arrancávamos outra vez passado uma hora e meia para a escola e depois íamos jogar à bola ao fim da tarde. Sempre tive uma vida meio de... A partir do momento em que fui para a Margem Sul, nesse aspecto mais desregrada e mais soltinha. Foi fixe.
16:53
Quando é que vocês se sentiram independentes pela primeira vez na vida?
16:56
Pai, há seis meses.
16:57
Já andam, ah, sim senhor. Tipo, estou aqui, estou...
17:03
Pois, ou seja, o independente... Está sempre relacionado com dinheiro? Sim. Minimamente. Essa parte é...
17:12
A gente pode ser aquela cena, tipo, é ter a chave de casa, é tipo, tenho um passe, é o quê? Sim, vai estar.
17:18
Eu no quinto ano, já na Sobreda, tinha aquele cartão vermelho que não deixava sair da escola. Exato. Não sei se isso já não é assim. Acho que há. Há assim uma... Não era o dinheiro de plantar o vermelheiro ou que deixava sair sempre? Já não me lembro. Eu tinha um que no quinto ano não me deixava sair. Aquela coisa de estar na escola, estar o dia interno na escola. E depois a minha mãe percebeu que no sexto se calhar já consegues vir almoçar a casa. E já tinhas o cartão com a bolinha laranja que te deixa sair à hora do almoço. Exato. O que é? Acho que era assim. Depois havia um que não tinha cartão, já não sei. Então acho que quando passei do cartão vermelho com a bolinha vermelha para o cartão com a bolinha cor de laranja que já me permitia sair da escola quando quisesse, acho que fui aí.
17:54
Tipo, ô! Quem é que é o campeão que sai e entra quando quer? Certo.
17:58
Responsável, adulto. E foste?
18:01
Responsável e adulto?
18:02
Não, não. Mas também não fazíamos nada de muito estúpido, mas...
18:08
Iamos fazer disparados para casa uns dos outros.
18:10
E tu, Manel, sentiste assim meio...
18:15
Não digo trancado, mas muito protegido pelo facto de andares num colégio privado e sentias que tinhas pouco esse...
18:23
Não, pronto. Também não conhecia outra realidade, mas...
18:29
eu queria, eu sempre quis ser adulto para ser mais livre, ou seja, mesmo que eu já tinha uma liberdade, era um vício, era um vício de uma pessoa não depender de nada, lembro-me de, acho que encontrei isso em casa da minha mãe, uma declaração, uma coisa no Word, que eu fiz para aí com 10 ou 11 anos, que não se chamava assim, mas era uma declaração de emancipação. Era uma coisa que eu apresentei aos meus pais para assinarem. No ponto de tipo, não mandas em mim. Exatamente.
18:57
O que é que dizia isso?
18:58
Era Lisboa, 8 de Fevereiro. Aos 28 dias de 2005. A partir de agora, a partir de agora pode fazer o que lhe apetecer, ou não existe... Ah, portanto, escrita por ti? Portanto, era uma procuração a mim própria dos meus destinos, não é?
19:15
E como é que os teus pais reagiram? Partiram-se a rir?
19:17
Sim, é assim, eu sempre me convenci, conseguia convencer as pessoas a aderir a este tipo de coisa. E tu estavas a levar aquilo super a sério? Eu estava completamente convencido de que os argumentos apresentados eram... Eram só... Eram suficientes e... E acho que é um bocado como a hora do Donald Trump, que quando está a entrar numa negociação, pede muito para depois conseguir um pouco e declarar uma vitória. E eu acho que com isso, não tendo ficar totalmente independente, conseguir mais liberdades, porque já está, quem não pede não...
19:48
Quem não chora não é verdade. O que é que isso te conseguiu, assim, ainda que pouco?
19:53
Não me recordo, provavelmente, de estar mais tarde... Ok.
19:57
Poder ver...
19:58
Não sei, é novela até.
20:01
Ganhaste meia hora na caminha. Certo, exato. Talvez levanta-te e rir.
20:05
Tu és filho de uma jornalista. Sim. E consta que passaste muito tempo a ver coisas que uma criança não devia ver. Não, estou a brincar.
20:15
Uma política preciosa.
20:17
Sim, mas tu, ainda por cima, atento e sempre a registar tudo nessa tua cabeça, como miúdo vias aquilo de fora, como é que aprendeste sobre o poder a ver a tua mãe a trabalhar?
20:32
Eu não aprendi assim tanto sobre o poder porque não convivia com o poder, não é?
20:39
Sim, mas com uma mãe que, sabe, telefonemas, idas e vindas, redações.
20:43
Portanto, herdei completamente esse vício da citação do último segundo. Certo.
20:52
do dia não acabar até ter de acabar, de haver alguma coisa... Do que é que abre os telejornais?
20:58
E que faz com que as pessoas tenham que trabalhar até às duas da manhã, que acho que hoje já não é tanto assim, mas que na altura era, e de ter que escrever uma coisa em muito pouco tempo, ter que ver muitas distrações, trabalhar num sítio onde as pessoas estão...
21:15
aos berros, a dizer as neiras, aprendi todas as neiras nas redações, e eu adorava isso, queria fazer parte desse grupo.
21:27
Mas chegaste a querer ser jornalista?
21:30
Sim, cheguei a fazer jornais, a brincar, estava sempre a fazer o meu jornal, a brincar.
21:37
Como é que chamava o teu jornal?
21:39
O Povo.
21:42
Certo.
21:43
Vejo que o colégio moderno fez-me bastante por ti, não é?
21:46
Sim, sim, sim. Acho que para já houve mesmo um jornal chamado O Povo e depois também era parecido com o Público, que era o mesmo trabalhado. A malta, as gentes. Mas sim, eu fazia assim os jornais, mas por acaso foi agradecer à minha mãe. Agradeço? Com todo respeito. Mas a minha mãe convenceu-me a não ser. Ou pelo menos foi-me dizendo que isto... Paga mal. É uma vida difícil.
22:11
Pois.
22:12
E ele vai e é um humorista. Também é uma vida que é fácil.
22:16
Sim, é fácil. Mas também é para pôr o dedo na Frida Manel. Sim, sim. Isso eu ponho.
22:22
Já tu, foste mesmo jornalista.
22:25
Não se pode considerar?
22:28
Eu apliquei jornalismo.
22:31
Cometi jornalismo?
22:33
Cometi jornalismo, mas muito contra a minha vontade.
22:37
Não foi assim uma coisa, uma paixão que tu seguiste?
22:38
Não, eu gostava muito de rádio, quando estava a tirar o curso de comunicação. e queria entrar para o meio da rádio. E quando estava no Rádio Clube Português, entrei, fui fazer uma espécie de comentário social, era estagiário de um programa de hora de almoço, da Teresa Gonçalves e do Aurélio Gomes, em que uma das horas do programa era dedicada à crítica social, mas não é brincadeira, é tipo, é gozar com programas que realmente fazem esse tipo de apanhado do social. E eu era o repórter que ia às festas do social Tirar, andávamos da púlcara com as Pimpinhas Jardim, sabes? E eu tinha vinte e poucos anos, não fazia ideia de quem eram as pessoas, eu andava de um lado para o outro, o meu trabalho de casa naqueles meses foi andar de um lado para o outro, com TV guias e revistas para saber quem eram as pessoas que depois me aparecessem nos eventos.
23:30
Certo, que é para começares a ligar as caras aos nomes. Para ligar e para saber... Ou seja, não dirias que fizeste jornalismo propriamente?
23:34
Aí não te fiz todos os nomes. Mas fizeste outras coisas. Mas fizeste... Tive-me um desporto a seguir, porque esse programa acabou...
23:43
e propuseram-me, passados uns meses, passados um ano para aí, a fazer parte da equipa de desporto do Rádio Clube Português. Aí já o jornalismo, é pá, digamos sério, mas ainda assim desporto. Desculpem.
23:58
Quando tu descobriste, tinhas a voz de rádio. Tu tinhas uma voz... Exatamente, ele tem uma bela voz. Passou, vou trabalhar em rádio.
24:07
Ou gostavas de rádio com voz fina? Eu acho que já gostava de rádio com voz fina e depois, por acaso, a coisa até foi ao sítio.
24:14
Tu falavas, tinhas uma...
24:15
É, pá, era criança, não é? Pois está. À partida teria uma voz não esta, que seria bizarro. Imagina, tu com 5 anos.
24:25
É, mas é uma bela voz de rádio, de facto.
24:28
E depois estive no desporto, mas também não gostava muito. Ou seja, depois inventei uma rubrica de as coisas mais engraçadas que se passaram esta semana no desporto.
24:35
Ah, já e o humorismo aí, não era.
24:38
Já no social também fazia entrevistas. é pá, sei lá, é o lançamento de um SWAT, estão no Delos Vão Torres, sabes? Eu aqui não me interessava para porra nenhuma. Lá arranjava umas perguntas mais engraçadas para levar ao programa as respostas engraçadas. Quando estive no Desporto, fez mais ou menos a mesma coisa, fazia uma compilação das gafas ou dos disparaços que tinham acontecido naquela semana do Desporto e propus Portanto, à direcção de informação, ter uma pequena rubrica nas tardes, ou seja, uma vez por semana, com o best-off daquela semana de coisas engraçadas no desporto, eu tentei sempre levar a coisa para o lado não sério, porque os factos e a literalidade não me diziam nada. Atrapalhavam-me. Eu ia para as conferências de imprensa, aquilo era aborrecidíssimo. Aborreci-te.
25:21
Acabou o jogo. Então, agora reage ao jogo.
25:25
Como é que vocês lidam com... E é engraçado que temos aqui duas pessoas muito diferentes nesse aspecto, digo eu, que é... Tu dizes que odeias regras. Sim. Sim. Onde é que isto vai parar? Que tipo de regras? Ou seja, lidas mal com... É a ideia da autoridade?
25:42
Eu acho que é isso. É um bocado cedo ou contra.
25:44
Ok. Na dúvida, tu dizes que não.
25:47
Sim, por exemplo, eu ia muito para a rua, mas se eu achasse que tinha sido injustamente mandado para a rua numa aula, eu dava a volta ao pavilhão e ia para a janela para tirar apontamentos que estava a dar na aula. Ah é, mandas-me para a rua, estou agora a voltar com atenção. É só pelo prazer de... Sim, sim.
26:03
Ok, na escola, mas como é que isso se manifesta na tua vida agora? coisas que não interessam para nada.
26:12
Por exemplo, eu fiz uma tour de stand-up inteira de calções porque o meu agente disse tu não vais agora para o palco de calções. E eu não vou aqui. E aqui está. É muito fácil manipular. É muito fácil manipular. Exato. Fiz uma tour inteira de calções em todas as giradas do país só porque me disseram que eu não podia estar de calções no palco.
26:33
O calção é uma coisa que manda muito em ti, não é? No sentido em que... Epá, eu gosto.
26:36
E depois percebi que podia estar de calções, mais do que a sociedade impõe.
26:41
Lá está. Mas é que é isso que eu ia dizer. Ou seja, às vezes aquela ideia do... Ah, tem que ir assim vestido, tem que ir... Tu estás-te a borrifar.
26:47
Se puder, tu... E depois percebes que realmente não há nada que te impeça simplesmente estar de calções. Porquê que não ia estar...
26:56
vai dar planos bizarros, porque ainda por cima estou com os calções da cor do sofá. A parecer que não tens nada a ver.
27:01
Não tenho nada por baixo.
27:04
Mas tirando isso, não tenho tido tantos dias estranhos por causa dos calções.
27:09
Já Manoel Cardoso, não sei como é que tu és com... Há aqui várias vezes, que é um bocado esta ideia de como é que se convive com a regra, com a autoridade, mas depois também, e já lá iremos também à questão da... Tu escreves tudo, tu tens uma rubrica diária na rádio, portanto, isso... obriga uma pessoa a ter que ter disciplina, a ter que ter regra.
27:30
Sim, logo de início, essa é a regra, ou seja, o facto de eu, para trabalhar, preciso de ter uma pressão constante e, portanto, propor, aceitar, estar em projetos que me obrigam a ter todos os dias que escrever é a única forma de eu produzir, porque se for...
27:52
É muito difícil para mim escrever um livro de raiz, porque é um projeto há dois anos ou um ano em que implica... Porque vais eventualmente começar a procrastinar muito. Exato, exato. Porque quer ver o monstro do pânico permanente para me fazer trabalhar.
28:07
O monstro do pânico é engraçado porque... Vives bem com ele.
28:15
É preciso, é necessário.
28:19
Quando as pessoas dizem isto deve ser muito estressante, para mim, ok, é cansativo, mas não acho que seja estressante. Eu acho que é ótimo. Finalmente, há pouco tempo para fazer. Porque quando há muito, às vezes para adiar. Quando há pouco, É ótimo, por isso é que, lá está, é um bocado também essa herança do Crescer em Jornais, que é notícia de última hora, só temos 20 minutos para fazer isto, ótimo, porque é uma baliza... E tu achas, nesse caso, essa pressa é amiga, não digo da perfeição, mas do gênio, da criatividade? Lá está, pronto, não é...
28:58
Às vezes a procrastinação está ligada ao perfeccionismo, mas não na ideia de querer chegar a uma coisa perfeita. É sobrevivência? Sim, tu vais desbloquear alguns caminhos de pensamento que estavas a bloquear, porque como há tanto tempo para pensar se isso é um bom caminho ou não, nem sequer...
29:20
Não é aquela ideia de aprimorar, não é?
29:22
Sim, vai sair o que sair e pronto. E acho que uma pessoa é ou não competente na base da consistência em que consegue trabalhar frequentemente, não é? Porque estar à espera de... Agora vou fazer aqui a minha grande cena. Claro. não tem essa capacidade de pensar, pronto, então por hoje isto está bom, vamos fazer agora uma hora e depois vamos almoçar. Tem que haver regras, eu ponho timers, cronómetros de 45 minutos para estar super concentrado.
29:58
Mas é do género, agora vamos aqui sentar a escrever e pões um...
30:02
É verdade, põe uma música de alta concentração, às vezes...
30:04
Posso escrever com música?
30:07
Sem letra, não é? Mas instrumentais com ritmo para...
30:11
Portanto, boom nos ouvidos.
30:13
Boom ou então só uma coisa assim meia etérea.
30:16
Ok. Mas se tiver que ser... Vais que procuras um meditation coisa no Spotify. Sim, sim, sim.
30:21
E aqui vai ele. Ou então, trans-focus 24 hours. Para assistir só um quarto de hora.
30:30
E essa é uma regra diária que tu tens? Ou é essa disciplina impõe-te a ti próprio e surgir?
30:36
Sim, por exemplo, o cronómetro é quase sempre.
30:38
E consegues escrever a tua rubrica em 45 minutos?
30:40
Não, não, de todos, são várias.
30:43
Várias parcelas de 45 minutos, porque se eu não ligar isso, e que às vezes tenho preguiça ou tenho dificuldade executiva em pôr em prática esse processo, e recorre mal, porque a pessoa acha que consegue trabalhar em duas horas, mas depois só trabalhou 12 minutos, enquanto se uma pessoa puder ir, ok, tem mesmo 45 minutos.
31:02
Há duas horas a fazer isto, não estás? Sim, sim. Então estás a ver os gatinhos.
31:05
E 45 minutos até é muito. Acho que 20 minutos é...
31:09
A capacidade de foco para estar a escrever já é bom.
31:12
Mas até a ideia de te sentares e até isso implica uma certa autodisciplina. Tens conseguido, tens sido um método que funciona.
31:17
Sim, às vezes funciona, outras vezes não. O que funciona sempre bem é... Se eu não acabe isto agora, vou só dormir 5 horas. É uma motivação forte.
31:27
Tu és mais selvagem, não é?
31:30
Ou seja, vou perguntar outra coisa. Em vez disso, que é impensável para ti esta coisa de todos os dias estar na rádio ou na televisão a fazer... Se puder, vou evitar.
31:44
Eu preciso de tempo para fazer as coisas. O meu programa é quinzenal. Nem isso é uma coisa que faça muito sentido. Nem sequer é diário, não é semanal.
31:53
Mas existe uma palavra para isso. Até pode ser...
31:57
Sim, sim.
31:58
Não sei. Bimensal. Exato.
32:00
Sim, tenho um conteúdo bimensal.
32:01
Exato.
32:02
Não faz sentido nenhum. E o que me permite ter uma semana em que eu estou mais a pensar nos temas, eu e o resto do pessoal que está lá comigo, em que estamos mais, hoje dá para ir almoçar, pensamos, houve lições, está aqui se calhar um ângulo giro, mas também não estamos assim tão...
32:17
Mas aquilo vai ali carburando todos os dias.
32:18
Quinta e sexta estamos nesta, de escrever umas ideias, por uns ângulos, espalhar umas coisas num lorde e ver o que é que dá.
32:26
Sabendo que depois é fundamental ter também o prazo, porque o prazo é obviamente o dia de gravação, dia e hora de gravação.
32:33
Portanto, de segunda a quinta-feira é, portanto, a tal corrida contra o tempo em que vamos deslocando o mindset do temos aqui estas ideias, mais ou menos, e que estão aqui vários ângulos e vários sítios para irmos, para, ok, segunda-feira temos que mesmo fazer isto, fechar esta ideia, construir esta narrativa, construir este bloco, e depois quarta-feira é fazer aquilo ter graça.
33:00
Mas tu dizes que és preguiçoso.
33:02
Com certeza.
33:03
Com certeza, não.
33:05
Muita gente não assume... Dá para fazer um programa daqueles semanal, mas o meu é quinzenal. Mas é quinzenal e tem uma hora. Sim, mas dá para fazer semanal.
33:12
Não é com as barrigas de menina, que é todos os dias, mas é só tipo quatro minutos.
33:15
Sim, dá para fazer aquilo que eu faço, dá para fazer semanal. Dá para fazer diário por absurdo. Mas ainda assim...
33:23
és patrão de ti próprio, ou seja, tu não tens ninguém que manda em ti. Portanto, isso também pode ser assim, às vezes... Era mais fácil, se houvesse alguém, andasse alguém, mas rejeitas isso absolutamente.
33:32
A ideia que tens... Prefiro também que não, lá está, porque... Como é que eu ia chegar a um... Agora, vamos supor que há uma televisão que está interessada num conteúdo... Ah, eu quero um programa quinzenal. que não existe, não é? Não é assim que as grelhas das televisões se organizam.
33:45
Imagina, vá que sim senhor, queremos o seu programa quinzenal.
33:49
É pá, mesmo assim nós temos ideias que são muito nicho e a internet também tem essa vantagem. Eu posso fazer uma piada que só eu e mais sete pessoas percebem ou acham graça, porque nos apeteceu naquela sequência, para fazer aqui um à parte tão ridículo, que isto não vai resultar para ninguém, mas é agir para aquelas pessoas que perceberem.
34:06
E nós temos muitas piadinhas em contramão, que não fariam sentido num conteúdo que não fosse em nome próprio, que fosse dentro de uma organização maior, de uma estação de televisão.
34:20
E também para as liberdades de linguagem que temos, que não caberiam com o patrão.
34:25
A internet agrada-te pela liberdade de seres mais livre naquilo que dizes ou mais pela liberdade de não estares dependente de ninguém? Ou é tudo isso?
34:34
A pressão é maior no sentido em que temos mesmo que arranjar a maneira de fazer com que isto pague ordenados às pessoas, não é? Mas, qual é que era a pergunta? Esqueci muito rapidamente.
34:44
Se a ideia de fazeres o que fazes, fazê-lo na internet e não tanto viabilizaste pela rádio ou pela televisão, ou o que seja, por ser um meio que... Ou seja, em que não dependes de ninguém, ou mais pela natureza daquilo que podes dizer, que noutros sítios cá achas que não poderias dizer?
35:02
Acho que não poderia. Eu acho que tenho uma linguagem. Eu não sei. Há pessoas que fazem aquilo que eu faço, que têm o nosso emprego e conseguem escrever para outras pessoas, porque são guionistas. Eu não sou guionista. Eu só sei fazer...
35:14
escrever para mim. Eu sou muito limitado naquilo que consigo apresentar às pessoas. Só consigo usar esta cara e esta voz e alguns ângulos cómicos para apresentar com esta cara e com esta voz. Eu não consigo pensar como outra pessoa para apresentar a voz dessa pessoa. Ou seja, nunca poderia escrever para outra pessoa e, como tal, mesmo dentro da minha pessoa, nunca conseguiria adaptar-me a um estilo de corporate. Ou seja, eu só consigo fazer aquilo que está mais ou menos a fazer sentido naquele instante, o que não acerta nenhuma estrutura normal, clássica de alguns de comunicação social.
35:54
Tu tens essa facilidade, Manuel?
35:56
Só consigo fazer aquilo que sei fazer.
35:57
Tu, como Guionis, já escreveste para outras pessoas, certo?
36:02
Saires um bocado de ti e quase meter-te na cabeça da pessoa para quem estás a escrever e quase teres a voz dela na...
36:09
Ou isso é vício para ti?
36:11
Eu acho que é mais uma regra que é interessante de auto-impor, que é não só escrever para outras pessoas, como escrever para determinados meios.
36:23
Isto não és tu?
36:24
Sim, é um exercício criativo de... Vamos aqui alterar o tom, ou seja, tentar vários tons. Porque eu não sei exatamente qual é que é o meu tom mesmo. Não sei qual é que é aquilo que eu prefiro. Gosto de experimentar várias coisas. E também, eu escrevo no Instagram com quem trabalha, em que o tom, não sendo eu a dizer as piadas, é um tom que a mim é muito familiar, porque é o da sátira política que... que está enraizado, não é estranho escrever para o programa. Mas eu gosto de ter, lá está, tem que ter regras, tem que ter constrangimento. Eu gosto do constrangimento na criatividade para...
37:11
Quando tu dizes constrangimento, é de que género?
37:14
Lá está. Aqui, ok, tem que escrever a crónica pós-expresso. não convém, ou seja, é um tipo de linguagem diferente da rádio.
37:23
Ou seja, ter balizas, não é, no fundo? Sim, sim. Ter limites para perceberes onde é que estás aquém e onde é que estás além, não é?
37:32
Sim, sim.
37:33
Como é que... O Manuel estava aqui a falar no método do cronómetro e tudo mais. Que regras é que tu, então, tens e que te impões a ti próprio ou nenhumas?
37:42
Epá, eu tinha... O programa anterior que eu tinha no YouTube era o relatório, era mensal. Certo. Especificamente porque eu sei que no final do mês tenho que apresentar um conteúdo, porque senão, era como estava o Manuel a dizer há bocado, se eu estou só a fazer um vídeo sem nenhum prazo, sem nenhum objetivo... vou acabar por não fazer, vou fazer amanhã, ou seja, precisava de me obrigar a mim próprio a ter uma certa dinâmica de trabalho e isso ajudou-me a fazer essa tal baliza, mesmo assim era um por mês, lá está, manter aqui a preguicinha também bem controlada.
38:18
E agora neste programa novo, no conteúdo, é quinzenal e a estratégia que eu arranjei para me concentrar em ter um resultado ao fim daqueles 15 dias foi trazer pessoas para trabalhar comigo. Eu antes escrevia tudo sozinho e agora tenho malta que escreve comigo.
38:37
O que no fundo é juntar o melhor dos dois mundos, que é ter amigos.
38:41
No fundo estamos a ver televisão, a achar coisas engraçadas, que era aquilo que eu fazia sozinho, mas assim com mais malta, e tenho a obrigação de dar ao fim de 15 dias.
38:54
não todos os dias, mas reunir-me com aquela rapaziada e produzir um conteúdo. Ou seja, neste caso tenho a responsabilidade de... De ter mais pessoas com quem... Certo. Fecharmos aqui ideias de ter um conteúdo fechado passado X tempo. No fundo é igual, ou seja, só que a gente fazia sozinho e agora em grupo.
39:15
Mas o objetivo é esse, se eu condicionar mais pessoas, se eu vincular mais pessoas à minha obrigação, tenho uma pressão adicional também para que isto no final corra bem.
39:24
Vocês são pessoas de rotinas, no sentido em que, não tanto aqui se calhar de trabalho, mas o que é inegociável para vocês? Tipo, eu tenho que ir ao ginásio todos os dias, ou tenho que fazer a cama assim que acordo, ou tenho que dormir oito horas, ou não tenho dois dias iguais?
39:37
Dormir eu só tenho que dormir porque senão eu fico mesmo doente.
39:41
Mesmo doente?
39:42
Fico mesmo com alergias, começa a espirrar-me todo.
39:45
Espirras quando não dormes?
39:46
Sim, sim. Eu dormi mal duas noites. Sintoma estranhíssimo. Não, começa a ficar com alergias. O meu corpo é alérgico, está cansado.
39:53
Ok.
39:53
Isto não foi diagnosticado.
39:55
Eu tenho um outro estado que me diz que... Não foi bem diagnosticado, foi mais, acho que... És menino para dormir, mas és a causa que dorme pouquíssimo?
40:01
Não, não, tenho que dormir, senão passo mal. Oito horinhas? Tenho que dormir às oito horinhas. Se dormir menos que seis horas, dois dias seguidos, basta um às vezes, mas dois... Espirros, caspa... Começo a ficar todo com os pirros, cansado, com os... Epá, tenho uma... Sou um frágil, sou muito frágil.
40:18
Não se deixem levar por esta voz.
40:21
O meu corpo desiste imediatamente. Dormiste mal, acabou.
40:24
Perdeu o carisma todo.
40:25
Não vamos a mais lado nenhum. Estás a espirrar. Estás renho, estás mal, tens de encostar e tens que ir para o carro de meia hora.
40:31
Tirando o soninho não tens assim grandes manias, grandes... Acho que não. E tu, Manel?
40:37
Eu agora tenho que... O que me dá a rotina é estar diariamente na rádio, portanto, essa é a minha rotina.
40:44
Mas daí tens uma hora para acordar todos os dias.
40:46
Exato, portanto, essa é forçada pelo trabalho. Normalmente essas rotinas são forçadas pelo que têm para fazer no trabalho. Não há assim nada que eu abdico de fazer, até porque a rotina também, a certa altura, me cansa muito e preciso de... de repente um momento de total improvisação, de não sei o que é que vai acontecer nessas semanas, e portanto eu vivo muito, portanto, eu no verão hiberno, ou seja, eu trabalho muito de setembro a junho, tenho uma rotina muito definida.
41:14
Sinto que temos que arranjar uma palavra para hibernação no verão.
41:16
Pois, fica esquisito, não é? No verão hiberno.
41:17
O que é que pode ser?
41:18
Portanto, eu estivo, eu estivo. Estivo, bom. Eu estivo. Estivo.
41:28
Mas tenho três meses no verão em que trabalho pouco, os dias são todos diferentes, o que é que se faz hoje, para onde é que se vai para a semana. Não há cronómetros, não há nada.
41:39
Diogo, o que é que o Manel já cozinhou para ti?
41:45
Não, muitas vezes.
41:46
Sinto que estou, se calhar, a tocar num ponto sensível desta amizade.
41:50
Quando fizeste 40 anos, fiz-te uma porta ao calópita. Fiz uma porta ao calópita. É uma sobremesa grega.
41:56
Ok. Eu senti que foi necessário dizer sobre a mesa grega, afinal, a seguir, porque as pessoas podiam ficar só... Mas não fez o quê?
42:03
Sim, não fez o quê? Sim, sim, não fez o quê.
42:04
Explique-me o que é. Uma porta ou calópita?
42:07
Então, é um...
42:09
É da família do arroz doce ou não?
42:11
Não é da família, de todo.
42:12
Ah, mas há muitas sobremesas parecidas ali na região, na Síria, no Irão, acredito que na Grécia também, naquelas...
42:21
Portanto, pensemos em Baclava, não é?
42:23
Baclava... Bem, Baclava não tem nada a ver com arroz doce.
42:26
Eu pus assim o dedo e era squishy.
42:30
Não, porque...
42:31
Os critérios de Diogo Batagas. Pus o dedo, era squishy. Portanto, não venham cá com merdas que aquilo era. Mas tem arroz doce.
42:38
Mais fundo...
42:40
Mas então, baclava, estamos a falar de frutos secos, massafilo...
42:43
Mas não é frutos secos, mas massafilo, sim. Sempre que vamos entrar numa parte da conversa que vai ser... Massafilo é a base da portocalópita, só que enquanto na baclava é suposto dela ficar crocante, na portocalópita é para ficar embebida em caldo, portanto faz-se como... Massafilho não, massafilo velha...
43:02
Há pessoas dizem massafiló. Pois é, pois é. Tu dizes filo. Digo filo, digo filo.
43:07
Desculpa, sinto que desconcentrei.
43:10
Não, não, não. Portanto, é massa filo, velha, parte-se tudo, faz-se ali uma massa com óleo e com sumo de laranja, não sei o quê, depois vai ao forno e depois leva com uma calda que é de... Portanto, há água, açúcar, laranja e canela. E é excelente, vai bem com chá. Portocaló, pita. Portanto, é tarte, pita, portocaló, laranja, porque em várias línguas Portugal significa laranja, como no grego e no persa.
43:36
E é excelente. Eu fiz esse bolo uma vez e é surpreendente. E não há muita disponibilidade desse bolo em Portugal. Sendo que eu pensava que tinha inventado Porto Calopito em Portugal. Mas Manuel Lisgocha, entretanto, já publicou um vídeo com a sua receita.
43:52
Não pode.
43:52
E eu acho que devemos ter um cook-off.
43:55
De Manoel Luís com Manoel Luís, dois Manoel Luís.
43:57
Pois é, vocês são os dois Manoel Luís. Tal e qual. Fogo. Que grande ideia. Como é que tomas essa sobremesa?
44:05
Comeste-te lá?
44:06
Não, apareceu-me um reel e eu achei interessante.
44:10
Agora, não é uma sobremesa muito comum e não sei como é que tu sequer demoraste a lembrar-te que Manoel Cardoso tinha feito uma porta ao calópita.
44:17
Porque ele não é cuidado, não é um amigo...
44:19
É que se ele tivesse feito uma bolinhesa, eu entendia o esquecimento.
44:22
Agora, fazes também, eu nunca mais me esqueci, fazes questão de fazer uma belíssima carbonara.
44:29
É uma carbonara ou é uma massa de assinatura? Bolinhesa sai melhor do que carbonara. A carbonara tem aquela dificuldade de o ovo ficar como deve ser e não ficar grumado.
44:41
O ovo e não as natas, por favor.
44:44
Nunca é demais reforçar essa questão.
44:45
Natas, no geral, é mau, é repugnante.
44:49
Não é?
44:50
Não é. Eu julgo que sou capaz de ter uma intolerância à lactose não diagnosticada, porque natas, mesmo até gelados, não te caem bem. Não caem bem.
45:02
E pá, eu natas, sou contra essa... Tu és grande viciado em natas. Porque nostalgia de infância.
45:07
Tipo aquele chantilly desguichado na boca.
45:09
Não, o chantilly não é. Não, mesmo bifes com um molho de natas.
45:12
Isso é um ganga clássico de jantares da malta, não é?
45:14
É, de repente, é x puto. Aquilo era... Ou champignon. Ou champignon, mas sem o champignon, que eu depois não queria o champignon. Queria era o molho que ficava.
45:21
Tu queres é um strogonofe, no fundo. Eu queria um bifinho porreiro, com um molho de natas. Com um molho de natas e champignon, mas sem o champignon.
45:27
E de vez em quando és um homem adulto e a coisa que me apetece é onde é que eu arranjo agora um bom bifinho com champinhão.
45:34
Tu cozinhas?
45:35
Não. Não gostas? De repente é aquela coisa de homem. Eu faço os grelhados no verão. Exato, eu sou o gajo do churrasco. Eu tenho uma daquelas cabra assim.
45:45
pá, mas o serrasco é uma arte.
45:48
E já conseguia para melhor que a doce.
45:50
E com competência. Porém, nestas mono-opções, nestes hiperfocos dos homens com estes interesses da grelha, por exemplo, compram-se muitos objetos, não é? Não só uma grelha de topo de gama, como uma série de objetos auxiliares.
46:07
Aquelas coisas para as brasas ficarem dentro de um
46:10
Isso tem imenso jeito. Claro. É caneca para as brasas.
46:15
E abanicos, como é que é? Estamos ao nível de acessório profissional já? Não, abanico tem qualquer. Ou basta secador?
46:20
O secador é uma boa ideia também. Claro que é. Claro, mas parece que é uma coisa... Não, não.
46:27
Excelente. Não se coaduna como tanta postura máscara que tu queres estar. Não, não, não. Eu não quero ter nenhuma postura máscara. Eu quero que os bifes fiquem bons.
46:36
Não vais estar ali com o Dyson?
46:38
ainda por cima logo um Dyson, quer dizer, eu não sei se aproximava um Dyson de um barboquio, calma.
46:43
Mas sim, mas depois com a ânsia às vezes de ter novos materiais para brincar, porque de repente é uma brincadeira nova, posso ter cometido um erro que o Manuel Cardoso quer sublinhar.
46:52
Portanto, dentro dessa... Eu adquiro parafrenália relacionada com grelha, incluindo um, muito importante, termómetro para saber a temperatura interior da carne. Parece-me evidente. E parece-me muito bem.
47:03
Só que... Digital ou...?
47:06
É digital. digital, que tem aquela seringa, não é? Certo, certo.
47:11
E eu tenho um, desculpe, é que tem os bichinhos todos que têm as temperaturas ideais para cada tipo de carne. Este não era perigo.
47:18
Este ainda foi o primeiro que eu tive.
47:20
Tipo, se queres porco está aqui, coisa aqui. França, sim.
47:23
mas deixou no interior da grelha. Portanto, houve ali uma maminha que tinha gosto a... Não sei qual era o bifalhão.
47:31
Eu fiz um bifalhão muito assimpático, vamos aqui fazer uns tomahawks e não sei quê. Toma. E espatei para lá com o...
47:40
Mas aquilo lá é uma parte que fica de fora.
47:42
Está bem. E ficou. Mas eu depois fechei a grelha, tapei e esqueci-me do... Derreteu. E aquilo derreteu.
47:50
Sim, fiz um tomahawk com aquele topo de pão astro. Gostinho da indústria.
47:57
Está aqui qualquer coisa que está esquisito. Mas por falar em cozinhar, que é uma coisa que também é muito dada, é um bocado dada às regras também. Tu és militar a cozinhar.
48:08
Eu também gosto de conseguir a receita...
48:11
Ok.
48:12
a receita são 123 gramas e meio das quantidades não tenho grande paciência para ir buscar a balança mas os ingredientes não gosto muito de invenções acho que invenções são invenções há coisas que claramente não combinam irrita-me quando sou a cozinhar e alguém vem e adiciona algo
48:35
É pior, a pessoa que vem e adiciona, mas adiciona de género, adiciona mesmo fisicamente ou adiciona um palpite?
48:40
O palpite também é irritante.
48:41
E a pessoa que vem e não adiciona, mas subtrai, que é aquela que tu estás a cortar, tipo coisas que precisas e há um que chega e tira.
48:48
Não há nada mais irritante do que dar um jantar em casa e depois chegarem os convidados, é que uma pessoa vai cumprimentar, mas depois tem que haver um encaminhamento para a sala, para haver um sítio longe da cozinha.
49:02
Tu devias escrever um livro de etiquetas.
49:03
Não é suposto estar a conviver com a pessoa que está desde as quatro da tarde num processo claramente exagerado e que não terá os resultados que deseja. Claro.
49:15
Muito, normalmente, acima do que seria... Quantidades absurdas, acima do que seria normal servir àquela quantidade de pessoas.
49:22
Quantidades absurdas, pode incluir técnicas... que não são notadas pelos convívos, pelos comensais, que só querem estar mesmo contigo e não ver-te às dez e vinte, cheios de fome, atrapalhado com três tabuleiros.
49:38
E fazer-te perguntas que tu não consegues responder porque estás concentradíssimo.
49:41
Sim, sim, sim. E perguntar ajuda.
49:43
O que é que eu posso fazer?
49:46
Isso é uma desculpa para seres antissocial, no fundo, não é? Eu tenho organizado os natais de família em minha casa, precisamente para essa oportunidade de sentir algum tipo de tensão. Eu sou alheio a qualquer tensão porque estou neste mundinho.
50:03
Portanto, também tens os teus cronómetros, no fundo, as tuas regras a funcionar.
50:08
Sim, eu acho que é ótimo. O cozinhar é dar a página, portanto, ter que seguir essa... Não é uma...
50:15
não é uma tarefa doméstica. Cozinhar no dia-a-dia, cozinhar aos mingos, tapabers, é uma tarefa doméstica. Receber pessoas em casa é tipo... Fazer porto calópita é... É um hobby. É um hobby e é... Vício em atenção, não é? Que as pessoas dizem que estava muito bom, não é? E realmente estava muito bom, Manel.
50:35
Parece-me... Deixa perfeita para vos perguntar. Valeu de amor. Se, no fundo, isso também é o que vos faz andar nisto do humor.
50:46
É sempre assim a vontade que, no fundo, isto está muito bom. Gostem de mim.
50:53
Os humoristas são todos assim uma camada de vaidosos.
50:55
Ou às vezes rejeitam completamente esta... Não, eu acho que não é bem vaidade.
50:58
Às vezes é insegurança, não é? Às vezes vem daí. Quereras tanto ser aplaudido ou gargalhado, não sei se se aplica desta forma, seres gargalhado.
51:08
Gargalhado.
51:09
Já inventámos, como é que era?
51:11
Eu estivo. Exato, eu estivo e gargalhado. Estivar, querer ser gargalhado, naturalmente vai virar de uma insegurança qualquer, não é? Mas... Mas no meu caso vem de uma espécie de... à falta de melhor foi o que eu consegui fazer da vida.
51:30
Ou seja, eu tentei jogar à bola, não deu.
51:33
Eu adoro a honestidade deste homem. Sou preguiçoso, à falta de melhor foi isto.
51:38
Foi o que resultou, às tantas, não é? Tentei jogar à bola, não deu. Vamos supor que foi por causa do joelho que me elegei.
51:45
Tentei fazer rádio, epá, não deu bem também.
51:50
E de repente, estou desempregado e começo a fazer umas parvoízes engraçadas, já gostava de stand-up. E de repente, olha, vamos por aqui, não é?
51:57
Esta pergunta era um bocado a mesma, mas se estar em palco dá muito sofrimento. Os dois já o disseram. Não conheço muita gente que vai a desejar falecer e que se abra um buraco no chão naquele momento. Mas ainda assim, porquê? Porquê que andam nisto? Vão atrás de quê?
52:20
Eu acho que começa porque é que se tenta ser engraçado, não é? E é uma fuga, não é? É uma forma de comunicar um pouco fraudulenta, porque uma pessoa está a fingir que está a participar numa conversa franca com outra pessoa, mas depois está a desconversar sempre. Piadas são permanentes desconversas. E uma pessoa fica com esse vício porque ajuda a passar, a evitar conversas difíceis, A que gostem de nós sem precisar passar por outras coisas que seriam mais difíceis de fazer do que escrever uma piada para gostarem de nós. E tanto é um exercício dessa manipulação da realidade de que, ok, afinal se eu disser coisas que não são sérias através dessas técnicas, não só consigo relacionar-me com pessoas, consigo...
53:16
que os meus amigos tenham interesse em mim e pronto, se houver estranhos que gostem disso ainda bem há aquela coisa da síndrome do impostor eu sinto que nós, ou pelo menos eu é certeza de impostor isto é uma síndrome que está na vida que é uma batota é uma manipulação é constantemente manipular a realidade para que
53:44
funcione para nós, quer dizer, milagrosamente, não faz sentido. Isto é uma profissão. Para quando a pessoa pensa várias vezes porque é que isto é uma profissão. Sim, isto é uma profissão, é patético, é absurdo. E há sempre essa vertigem de até quando é que eu vou conseguir enganar as pessoas ao ponto de continuar a fazer com que isto seja o meu emprego. Sabes, eu tenho sempre... Isto é um medo real? É pato ou não é? Não sei fazer mais nada. Se de repente eu deixo vender bilhetes, estou entalado. Estás a perceber? Então há este medo de parar de ter público ou de ter graça, ou de conseguir fazer as pessoas, de enganar as pessoas ao ponto de baixarem interessante o suficiente para comprarem bilhetes para ver os meus espetáculos ou para irem ver as bocarias que estão no YouTube. Esse é um pânico constante, que é... Se isto não dá, lá está. Eu vou para onde? Não sei. Eu tenho as portas calópitas, portanto... Tu sabes fazer, exato. Depois eu caio uns termómetros. Nem bifes dá. Nem posso ir para os bifes. Está pior para ti. Está pior para ti.
54:43
Portanto, eu tenho de me esforçar. Ultimamente, no humor, parece que há assim um grande cisma entre a forma, o texto. Faz algum sentido esta arrumação? Ir agora uns vão para aqui, outros vão para ali. Vocês posicionam-se em algum sítio ou isto é só muito Palermo?
54:57
É pá, como é que é? Forma-texto.
55:00
Aqueles que se preocupam mais com o conteúdo, outros preocupam-se mais com a forma de o dizer. Sinto que ultimamente tem sido assim. Não tenho certeza.
55:09
Eu acho que...
55:10
Eu acho que é bom porque já significa que há humoristas suficientes, que é para enchermos um sítio e outro, não sei.
55:17
Já há fações, é isso, já somos em número suficiente para nos chatearmos com os outros.
55:23
Isso é absolutamente indiferente, não dão um segundo a pensar nisso.
55:27
Sim, se for entre a forma e o texto, quer dizer, eu sou do texto, nem sei bem o que é que é a forma, não controlo nada, só me preocupo em escrever, não porque não acho a outra parte importante, é porque não se...
55:43
Não sei nada sobre isso.
55:44
Mas quando diz a forma, uma careta é texto?
55:48
Estás a perceber?
55:49
Não, não, a careta é forma.
55:50
Então a forma interessa.
55:52
Não, a forma, eu acho que interessa mesmo os dois. Porque às vezes uma careta é texto, porque é a forma, esta palavra só resulta...
55:58
É o livro e é a forma como entregue, que estás a entregar aqui.
56:00
Certo, se estiver irritado nesta parte, resulta. Se estiver descontraído nesta parte deste texto, não resulta. Portanto, nesse aspecto é uma forma, mas eu acho que isso é texto. Ou seja, quando tu escreves com uma determinada intenção, essa palavra não é só as letras que lá estão, é também a intenção... Sim, sim, é a forma como vais dizer, sim. É a forma, literalmente, é a forma, mas conta, na minha forma de ver as coisas, conta com texto, no sentido em que é...
56:25
Não dá para destrinçar. Esta frase só funciona se eu a disser desta maneira. Portanto, é um texto mais vago, digamos assim. Mas a forma também conta. No sentido em que, às vezes, como eu não confio 100% no meu texto, às vezes tens que fazer outras coisas.
56:44
Às vezes uma careta pode ajudar a...
56:48
É muito difícil, eu acho, eu acho que é mais intuitivo melhorar o texto, não é? Portanto, perceberes que o texto não está bom e pode ficar melhor. De certa forma, vai-se mais a...
57:02
É uma forma totalmente aliada do texto, neste caso.
57:05
Sim, mas ou mesmo, por exemplo, a entrega. A entrega é muito difícil de tu concluíres com elevado grau de certeza e com várias pessoas a concordar qual é que é a melhor forma de entregar uma piada ou... Por isso é que de vez em quando estamos a fazer um espetáculo e corre bem de uma forma em que
57:25
nós achamos que temos aquilo que diz explicitamente e depois outra vez em que estamos muito concentrados na melhor forma de dizer e que não cai da mesma forma mas mais difícil de prever e portanto de trabalhar o o objetivo é sempre isso pode parecer se calhar uma pergunta palerma mas a ideia mesmo sempre só fazer rir o objetivo é só esse Ou seja, no sentido em que há coisas que se passam, que acontecem à vossa volta e há gatilhos que se acionam em vocês porque aquilo faz-vos ter vontade de, através do humor, dizer outra coisa qualquer. Ou sentirem que têm um papel para, ao dizer, ao fazer rir, chamar a atenção para um problema.
58:17
Estavas a dizer para falar na ótica da pessoa que recebe as piadas, ou não?
58:21
Não, não, no sentido em que o fim é sempre o de fazer rir, é arrancar uma gargalhada às pessoas.
58:30
Não está, tu podes ser egoísta, entre aspas, e construir um texto com base em mágoas ou em experiências de vida negativas e isso ajuda-te a fazer o cope, não é? Certo. Ou seja, pode ser, no ponto de vista egoísta, pode não ser só fazer rir os outros, pode ser salvar-te a ti, de alguma forma, de um sítio onde estejas. Mas, tirando essa especificidade... Tu trabalhas à partida para aquele ruído, para aquele barulhinho. Acho que é a base. Um pode querer fazer humor com temas que considera mais elevados ou mais importantes para a sociedade.
59:04
Acho que é mais essa se usa como ferramenta para mudar mentes. Sim, não digo... Pois, um bocado essa coisa, nunca...
59:14
Não, enfim, o humor é... Ou seja, a rir, não é? É o fim, sem dúvida, tanto é que irrita-me quando eu escrevo alguma coisa e as pessoas estão a gostar ou a partilhar por causa da opinião subjacente.
59:30
Porque essa foi escolhida de forma muito leviana. Foi só... Eu optei por...
59:37
A verdade ou a opinião está ao serviço de fazer rir e nunca ao contrário.
59:42
Eu percebi a pergunta no sentido em que há pessoas que tu respeitas porque te fizeram também ver as coisas de uma forma diferente, sei lá, como de antes... gigantes, que nós aprendemos a crescer com eles e não foi só a fazer rir que eles trouxeram à nossa vida. E eu percebo essa pergunta nesse sentido. Se calhar até respeitas mais uma pessoa que não só te fez rir, como em cima disso te deu ferramentas para ver as coisas de uma determinada forma. Agora, do ponto de vista pessoal, desde logo porque eu não sinto que tenho nem essa responsabilidade, nem essa capacidade de não vais ser melhor pessoa por minha causa, espero eu, nem quero, Exato. Não quero essa responsabilidade para mim porque esse não é o meu foco, não tenho essa sequer capacidade.
60:27
Como efeito secundário aceita-se que haja outra... Pronto, é isso.
60:30
Mas esse não deve ser o objetivo, não é?
60:32
Sim, porque não faz sentido no nosso método de trabalho estar a pensar agora, esta parte agora vai ser para fazer chorar, não tenho essa capacidade.
60:40
Ou para mudar mentalidades.
60:42
Exato, sim, e às vezes pode parecer que, imaginando que se fala mais sobre um tema e que esse tema seja delicado, às vezes é só porque há coisas que são ridículas e que isso entusiasma-nos a falar sobre, ou abordar mais esse tema e não porque é muito importante, não se faz um alinhamento de pá, se eu não falo sobre isso, quer dizer, eu estou-me a trair, não, é assim. Às vezes há coisas muito importantes, não consigo verbalizar, não consigo fazer comédia sobre isto, não tenho este ângulo, não consigo arranjar aqui nada.
61:18
O que é que tu achas que devia mandar menos no Manel e vice-versa?
61:24
Mandar menos no Manel? Acho que ele está ajeitoso como está. Ou seja, o que é que condiciona muito o Manel?
61:32
O que é que tu achas que o Manel podia mandar menos, condicionar menos, sim, de certa forma.
61:42
Epá, agora lixaste-me com essa.
61:45
Faz-te o primeiro. O quê? Vai tu. É, está bem.
61:50
Não, o que é que podia mandar menos no... Eu acho que é o... Vocês ficam levados para um sítio super profundo e se calhar... Tentei ir pela profundidade, depois não deu. Eu tenho, eu tenho. Eu acho que é o... O que devia mandar menos no Diogo é a ideia de ninguém mandar no Diogo. Porque, ou seja, não te custava nada, de vez em quando, pôres um fatinho. Pôres um fatinho.
62:13
Até de ser nos últimos golpes consegui pôr um fato.
62:15
Não era um fato. Estava em que fui de tênis. Era um cardigan com uma camisa.
62:20
Não, no outro assim já fui com um blazer, pá.
62:23
Foi. Olha, lá está, mas o dress code era explicitamente... Ficou com um blazer, mas calças de fato, pá. Não é?
62:32
Essas regras são para respeitar?
62:35
Não tenho paixão nenhuma. Tudo o que é convenções convenhamos é tonto. Olha, eu lê mais das convenções.
62:44
Há aqui um jovem conservador. É giro. Para ser giro também, romper algumas. Ou seja, tem que se criar uma estrutura. Há uma estrutura para mesmo engraçado. Mas não tem que ser engraçado. Se for tudo uma...
63:00
Ou seja, quando eu estou de calções não é para lixar o sistema. É um bocado. É porque eu não gosto de estar de calças. Tu queres lixar através da exibição? Parece que é tipo... Nenhuma taxa não é que lixou o sistema usando de calções. Toma, a romper aqui os cânones.
63:14
A revolução vai ser feita de calções.
63:16
É mesmo que eu não gosto de estar de calças. Eu tenho claustrofobia de gêmeos. De pernas.
63:22
Não gosto de ter coisas aqui a tocar-me, a apertar-me, não gosto.
63:26
E o Manuel, achas que o Manuel então devia se calhar... Relaxar um bocadinho. Menos tenso em relação a estas convenções, é isso?
63:32
Estou-te a criar esta de bandeja. Fazia se calhar mais sentido aproximar-nos, no fundo, encontrar-nos a mecanismo. Essa é a sensação de diferença, assim, eu sou, eu tenho... Tu és um baldas, eu tenho muitos... Tu vais de fraco, pá.
63:41
Vou, vou de fraco.
63:42
Tu é mesmo fraco daqueles com a calda, tipo, à pianista. Uhum.
63:47
Não fui, porque lá está. Era o smoking. Porque era de noite, o fraco é de dia. Não estou à espera que saibas.
63:53
Isto é um livro de etiqueta à espera de acontecer. E em que é que vocês gostavam de ser mais livres?
64:01
Eu agora era mesmo só...
64:05
Podia dormir mais. Volto sempre para aqui.
64:08
O teu sonho é... O meu sonho é acordar ao meio-dia. e agora não dá. Estão lá uns putos ou quê?
64:15
Acho que são teus filhos, não é?
64:16
Acho que sim, acho que sim, quase de certeza.
64:19
Mas tu gostas deles?
64:21
Sim, toleradamente sim. Mas preferiam-me acordar ao meio-dia.
64:27
Manel, e tu?
64:29
Não sei, não... Eu acho mesmo, quer dizer, não há...
64:33
A minha vida é plena de sorte e de liberdade. Não...
64:38
É difícil e até seria arriscado estar a pedir mais liberdade do que eu tenho hoje. Tenho medo. Mesmo que eu queira, vou reprimir para não me lixar.
64:54
Portanto, estás bem como... Sim, tenho toda a liberdade. O que é que é para vocês uma ideia de...
65:04
Eu não sei, ter milhões de euros. Milhões de euros.
65:07
Ok, lá está, voltamos à questão do... Sim, que é chato, não é?
65:09
Não devia ter uma coisa... O vil metal associado...
65:13
O capitalismo que ia mandar...
65:14
A liberdade, mas sim, porque isso significaria que não tinha que preocupar se trabalhava ou não. E trabalhar, apesar de fazermos uma coisa gira... Sim, é muito chato.
65:23
Nós não dá para nos queixarmos do nosso trabalho. Mas já fomos nós que o escolhemos, basicamente. Mas eu, num sentido que é só o YouTube, não sei o quê. E pelo momento que tenho que acordar cedo e tenho que ir para um sítio e tenho planos e tenho horas para apresentar tralhas, como é que um gajo, como é que eu me posso queixar? Qual é que é o trabalho? Eu vou ter com uns amigos para uma cave, escrever umas coisas e ver a visão de rir um bocado, agargalhada, e depois dar aquilo às pessoas, e as pessoas riem e dizem que tu és engraçado.
65:54
Ser livre tem muito... Há partes chatas.
65:58
Está bem, mas as partes chatas...
66:00
Escrever é chatíssimo. Não tenho coragem de me queixar das partes chatas.
66:04
Não é queixar. Já tive a vida antes de não fazer isto e é pior. É mais chato. Ter que ir trabalhar para um sítio e... Aliás, eu levei uma pizzada por estar de calções no Rádio Clube. E é a rádio.
66:18
Levaste uma pizzada porquê?
66:20
Estava de calções, quando fazia rádio.
66:21
Isto é um tema que já te acompanha há muitos anos.
66:23
E já lá voltaste a Sampaio e Pina. De calções, ainda hoje lá tive. De calções, veste lá de calções.
66:27
Estive lá de calções.
66:28
Eu já tive imensas ofertas, mas como tinha que usar calças, não aceitou.
66:33
De repente tinha que ir, o meu chefe na altura disse, epá, tu voltaste de calções, mas isto é rádio.
66:38
As pessoas não sabem, era o sítio de calções.
66:39
E na altura ainda não era rádio visual.
66:41
Sim, foi numa altura que não havia vídeos, não havia redes sociais nas rádios. Mas vais entrevistar os Gluis Idas, não é? Estás de calções.
66:49
Acho que não se importa.
66:51
E não se importa, claro que não se importa. Mas eu tinha uma altura que tinha voxpops diários. Tinha que todos os dias, à hora do almoço, ia fazer um voxpop rápido para a rua e voltava para editar aquilo e apresentar no programa da tarde. e realmente estava de calções com o microfone do Rádio Clube Português. Estavam a chatear-me porque estava de calções no Rádio Clube Português. Epá, estás a perceber? Não me queixo de nada da minha vida agora. É esse o ponto.
67:09
Muito bem.
67:12
O Numan das Emi tem o apoio da Dacia, uma marca que sabe que sim, que o Banco de Trás vai andar com restos de duas semanas de lanche da escola, que aquele saco de roupa vai viver na vossa bagageira durante seis meses e que, claro, vai haver uma pequena discussão de casal sobre se deviam ter ido por este ou por aquele caminho. E é por isso que a única coisa que a Dacia leva mesmo a sério é serem a solução perfeita para a realidade imperfeita do dia-a-dia. E para terminar, Diogo e Manel, se vocês mandassem, o que é que passava a ser obrigatório?
67:42
Não vou dizer calções. Ocorreu-me que pudesses pensar nisso? É pá, só queria menos constrangimentos no geral. Menos convenções, é isso? Menos manéis a impor de que forma é que eu tenho que ir vestido a um batizado.
68:05
Daniel, o que é que passava a ser obrigatório?
68:06
Eu acho que não era mau, talvez um pouco ditatorial, mas não era mau uma carta de interpretação de texto renovável a cada cinco anos para participar na vida cívica e na internet também. Uma espécie de carta para andar nisto?
68:25
Sim, porque, atenção, isto não é... Elitismo. Não é elitismo, não. Está aqui o elitismo. É jovem conservador elitista. Não é, não é, não é. Eu vou explicar, eu vou explicar. Se até... Um pequeno ditador. Portanto, eu não estou a dizer para implementar já, talvez só daqui a 20, 30 anos, mas quando a esmagadora maioria das pessoas que viveram na terra, tiveram... portanto, o ensino obrigatório, de vez em quando fazia-se um teste para atestar que essa competência de interpretação mais básica possível... A carta de condições de 65. Exato. E, portanto, obviamente eu não quero excluir...
68:59
É tipo a carta do cidadão.
69:01
A carta do cidadão. Mas muito simples. Só três ou quatro frases para poder comentar em caixas de comentário dos jornais.
69:10
Que frete é que deixavam de fazer? Tu já dá-me a ideia que fazes pouquíssimos, não é?
69:18
Eu tento fazer um mínimo de frete.
69:20
Mas qual é aquele mesmo que te atasana ao juízo mesmo?
69:24
É que tenho que ir pôr os putos à creche cedo. Por acaso, isso irritou-me. A creche, há uma hora limite para deixares o puto.
69:38
Não sei se isso é em todas.
69:39
Mas querias achar que é às quatro e meia da manhã?
69:41
Não, não. De tarde. Vamos supor que é às nove e meia.
69:47
Vamos supor que um puto acorda às dez da manhã.
69:51
Não pode.
69:52
Ah, é. Já não pode... Isto faz sentido. Sei que há essa regra depois mais à frente, na primária ou assim.
69:59
Não, não, não.
70:00
E mesmo assim não pode... Sim, mas são crianças que... Estão atrasados para quê?
70:06
Pronto, estás a perceber?
70:07
Estão atrasados para a sexta da manhã?
70:10
Se eu moro lá perto. Às vezes... Vamos supor que a amiga está dormindo também.
70:15
Espera, que crianças tens tu em casa que ainda estão a dormir a essa hora?
70:19
Epai, tenho sorte, não me queixo da minha vida.
70:20
E tu estávaste a queixar de não dormir?
70:22
Porque não é ao meio-dia que ela acorda, apesar de tudo, não é? Mas, perceba, eu não posso sempre queixar. Mas, tentando, se vamos expor que está uma criança, é pá, serenamente a repousar, de boca aberta a babar-se, às nove e meia da manhã.
70:42
Deixa estar. Sim, claro. Sempre deixas estar.
70:45
Não é? Mas não, porque senão... Mas como tem o limite, tem que acordar mais cedo, porque senão não consigo.
70:51
Só tens de ficar com ela o dia todo em casa que não a deixam entrar na escola. Mas a sério, não deixam.
70:54
Ou pagas multa, não sei o quê, não sei bem, ou levas na cabeça, ou recebes um mail.
71:00
Pagas, anda, recebes o menor.
71:01
Não pode ser a um horário. Tu tens o teu trabalho de sonho, descendência que dorme até tarde, tens vaga na creche, que é uma coisa rara neste país, e vens para aqui, espetar na cara das pessoas que queres pôr meia hora depois. Perfeito, eu não faria atender qualquer género de chamada telefónica acho que devia ser proibido ligar, a não ser que seja ou seja, tratar os números das pessoas como se fossem o 112 que é em caso de emergência, ligar até para uma pessoa saber e de resto toda a comunicação ser escrita concisa e com detalhes sobre qual é o motivo da interação e não aquele posso-te ligar Podemos falar 10 minutos, não, tudo pode ser, até podem ditar para as inteligências artificiales, porque aquilo faz um resumo exatamente do que é que está em causa e não ligar.
71:59
Diogo, enquanto pessoa um pouco mais velha, como é que comenta esta afirmação?
72:05
Gosta de uma boa chamadinha ou concorda com o colega?
72:07
Aqui vou ter de concordar com o colega.
72:09
E vale áudios?
72:11
Não.
72:12
Não, a não ser... Não, não. Vale um bocadinho, apesar de tudo. Receber áudios, porque recebes, tipo, podes cagar, não é?
72:18
Eu gosto muito daquele lado que diz, é mais fácil, para quem?
72:22
Para quem? Para quem? Para o emissor. É mais fácil para ti. Mas entrar áudios e ligar, áudios.
72:30
Não, escrever sempre. Escrever porque há um registro, é melhor para lembrar, uma pessoa tira uma fotografia ou que leu.
72:37
Se for uma data, está lá escrita. Está lá escrita e não será esquecida.
72:40
Entra escrita e áudio, escrita.
72:44
Depois não podes pesquisar, se for uma conversa de WhatsApp, por exemplo...
72:47
ah, eu tenho ideia que ele falou que era dia 23 eu estou sempre a fazer essa pesquisa por palavra-chave quando foram faladas tendo escrito o áudio eu ouço o áudio em vezes dois e depois de vez em quando a pessoa acelera no seu discurso e eu tenho que passar, volta atrás vai ao vezes um, vai um e meio e de repente perdemos mais tempo é realmente grave estava aqui a dizer que o outro acorda cedo e não sei o que não se queixa, eu estou-se a queixar que às vezes as pessoas falam muito depressa porque eu ouço em vezes dois o que é que todos devíamos experimentar uma vez na vida?
73:21
Diz tu primeiro, já tens aí.
73:22
Não sei, não tenho.
73:23
Experimentar uma vez na vida.
73:25
Uma comida, Manel. Estou-te a ajudar.
73:27
Uma comida?
73:29
Não sei, não sei.
73:30
Pois não sei. É que eu acho que não tenho uma vida eu próprio. Juntei poucas coisas.
73:36
Vamos ter que dizer coisas como viajar, não é?
73:40
Viajar uma vez.
73:41
Mas ir onde, especificamente? Sim. Experimentar novas culturas. Não é? Sim. É para sair de toda a ocasião de conforto.
73:49
E perceberes que aquilo que tu tens como garantido às vezes não é para uma grande porcentagem das pessoas neste planeta. Ir... Ir a Nova Iorque, sem dúvida. Ok. Foi o que eu disse.
73:59
Só que eu vou usar. Mas não é uma nova cultura. Eu acho que ir a Nova Iorque é o contrário. Há muitas viagens que eu vou experimentar novas culturas. Nova Iorque é... Infelizmente, ou não, ou felizmente, é a cultura com que gerações desde os anos 80 em Portugal cresceram. E corresponde, não é?
74:17
Quando eu era criança, achava que o estrangeiro era arranha-céus. Todos, não é? Sabes? Vês os filmes de porrada, não é? Certo. E eles estão todos, não é? O Die Hard está sempre no arranha-céus.
74:29
E um dia levaram-te a Paris e pensaram.
74:31
Os filmes eram todos nos Estados Unidos. Tudo baixinho. E quando eu descobri que Espanha era parecida connosco, foi uma desilusão. Certo. Sabes? Olha, um prédio de dois andares e não faz sentido nenhum.
74:39
Quando o Manel era pequenino, O Estrangeiro era um livro super importante do Camus.
74:45
Quando eu passava à fronteira, era o arranha-céu. Na minha cabeça, de seis anos, sei lá, de quatro, não sei, era assim que era o estrangeiro. Uma ilusão muito grande. Perceber que o Cruzeiro não é assim tão grande.
74:55
Há coisas muito cómicas. Eu, quando era minha, achava que eram as Espanhas Douradas.
75:01
porque era o que eles diziam na meteorologia, nas Espanhas Douradas e eu pensava, ok, só há Espanhas Douradas.
75:05
Atenção, a calçada de Carris. A calçada de Carris. Ainda é meio para a metade das pessoas. A calçada de Carris.
75:10
Da Carris. Pois então se lá andam autocarros, como não?
75:14
E eu achava que, por exemplo, Londres, Londres é a 20 minutos de Lisboa. É ali onde é o IKEA, ali ao lado de... Ah, você nunca tinha ouvido. Londres, Londres. Ah, ali é a Crelo, quando metes-te na Crelo e vais para Londres.
75:25
Você nunca tinha ouvido. Durante um ano, ninguém pode dizer a palavra...
75:31
Contuse.
75:32
Atrasado.
75:34
Estás atrasado. Porque toleras atraso ou porque não toleras que não te telerem os atrasos. É passe. Se não houver o conceito de atraso, estou safo. Estás a perceber?
75:47
No fundo tudo serve para deliberar o Diogo de responsabilidade.
75:50
Talvez tenha sido.
75:50
Que palavra é que deixava de ser um palavrão?
75:53
Eu aí sou contra a proibição dos palavrões. Certo. Não, sou contra a liberalização. É uma resposta dessa, a resposta sai muito aqui. Sou contra a liberalização dos palavrões, porque o palavrão tem o peso que tem, precisamente... Lógico, claro, e depois não deixa de ser... Pois podemos, não é? Se não... Exato. Se pudermos dizer as coisas... Sente-se muito um bocado no Brasil. Imagina, quando há aqueles que acabam o jogo e vai a flash de interview, um brasileiro vê num campeonato estadual paulista, vai lá e dizem aquilo com uma beleza que não é suposto. Aquela palavra é para quando estás mesmo...
76:30
E eu gosto de desagradar... Está reservada para esses momentos.
76:33
No humor eu adoro quando é censurado, ou seja, o blip tem mais graça...
76:37
Pois, porque carrega de importância àquele momento. Era o jeito que tivesse para fazer um sender, pô, vamos mandatar um técnico para pôr o bip.
76:43
Imagina o stress dessa pessoa.
76:45
Exato. Tens tritumbo também, Paulo. Eu acho que deve haver não proibir, não liberalizar palavrões, mas retomar a utilização de alguns palavrões, ou palavras mais insultuosas que caíram em desuso, como cáspita.
76:56
Estava a pensar nessa, achas possível?
76:58
Acho que temos de voltar com cáspita. Mas cáspita, isso é um palavrão. É uma interjeição. É tipo apre, raios, foda-se. Mas há alguns insultos como pederasta. Eu gosto muito do insulto de pederasta. Mas lá estamos, eu não considero isso as neiras, são só insultos que eram divertidos. Ou seja, não passas aí na rua e não chamas a ninguém.
77:21
Seu pederasta.
77:21
Seu pederasta.
77:23
Tomou. O que é que passava a dar a ser crime ou a dar-me multa?
77:29
Vou tentar mudar de tema, não é? Para não ir outra vez para situações. O que é que passava a ser crime?
77:36
Sim, no fundo é o que é que te enerva muito, não é? Uma coisa que te enerva tanto que as pessoas deviam ser multadas por fazerem isso.
77:41
Interações sociais demasiado longas.
77:46
Quando não há... Tem de haver um acordo. As pessoas...
77:52
Mas é o quê? Tipo, um encontro na rua é o quê?
77:53
Por exemplo, mas mesmo entre amigos, às vezes.
77:56
Ok.
77:57
Não sei bem como é que isto se mede.
77:59
Ou seja, devia ser ok dizer, olha, pronto, a minha bateria social já foi e tipo, estou-me a ir embora.
78:02
É um bocado isso, é. Mesmo entre amigos ou mesmo entre familiares ou com desconhecidos. Devia haver um automatismo. Certo. Que as duas pessoas percebessem ao mesmo tempo. Ai, ai, isto já está bom. Está bom.
78:14
Só o Natal acabou. Obrigada, Deus.
78:16
Devia haver um automatismo. Deviam ter chips. Vão para casa.
78:19
que comunicavam, que os telemóveis falavam uns com os outros e tal, de algoritmos.
78:22
Olha, na pandemia, quando estávamos no Zoom e diziam, esta reunião vai acabar em 10 minutos. Uma coisa assim.
78:28
Mas isso era automático, as pessoas percebiam ao mesmo tempo que acabou. Era milagre, ninguém ficava com a responsabilidade, de estar a chatear o outro ou de estar a ser chateado.
78:37
Não existe comunidade sem esforço e desgaste. E, portanto, eu acho que esse desconforto, uma pessoa tem que o superar para realmente ter pessoas que queiram estar connosco até ao fim dos nossos dias. E por isso é que nós ainda temos esta amizade. Porque somos obrigados a estar juntos uma hora. Porque para nós o podcast tinha 20 minutos. Mas uma hora por semana é por causa disso.
78:55
Ele lê. Ele cozinha.
78:58
Ele escreve todos os dias. Olha, que está aqui um sonho de menino. Se um dia forem presos, o mais provável é porque fizeram o quê?
79:08
Homicídio simples, eu acho. Ok. Porque, reparem, eu acho que é um dos crimes... O que é que é homicídio simples? Qualificado? Qualificado não, mas eu sou algum maluco. Qual é? Eu não sei bem... Porque vai botar um gajo sem querer? Não, não é sem querer. Isso é homicídio involuntário.
79:21
Qual é a diferença entre um homicídio simples e um homicídio qualificado?
79:24
Qualificado é, por exemplo...
79:25
É com desabilitações.
79:26
Eu tenho imensa inveja dos cilos do Diogo, não é? E por isso isso vai-me remoendo e eu começo... ficar obcecado.
79:35
É com dolo, é com...
79:36
Eu vou começar a planear, portanto, eu sei que ele mora aqui, não sei o quê, e vou comprar uma arma...
79:42
Há uma premeditaçãozinha, ok.
79:43
Exato. O município simples é, na rua, envolveram-se numa cena... Sim, eu e o Diogo temos uma grande discussão e com esta garrafa... Ah, tu achas que vais passar os cornos um dia? Não, não, só de dizer que esse é um dos crimes mais... Se é para dizer um crime pelo qual uma pessoa pode ser presa, eu que sou um law-abiding citizen, eu acho que ninguém está...
80:02
quer dizer, ninguém está livre de por acaso ter que ascender.
80:07
Tu sofres um pouco, não sei se é uma inconfidência, mas de road rage, é uma coisa que... Nessas situações tu podes ver como dizer o homicídio.
80:16
Estou a tentar trabalhar isso. Mas eu sinto que se for preso é um crime qualquer que eu tenha cometido sem querer.
80:22
Coisas de não ter assinado um papel.
80:24
Fugiste aos impostos.
80:26
Sou capaz de fazer aos impostos sem querer.
80:29
Olha, acontece.
80:30
Eu estou farto de pagar multas de IVAs e de IRCs.
80:33
Estás farto no sentido de que pagas muitas ou que já atingiste o teu limite de paciência para pagar?
80:36
Não, pago-as porque eu esqueço. Eu sou um irresponsável.
80:40
É, por acaso ainda não tenho.
80:41
Obrigada.
80:42
Queria publicamente pedir desculpa ao meu contabilista por tudo o que tenho feito por mim.
80:46
Ou seja, tu recusaste a ser adulto.
80:48
Não é recuso, eu não consigo. Não é por maldade. Então eu sinto que qualquer dia vamos lá bater à porta e dizer que devo 400 mil euros.
80:58
Isto é um bocado chato se, por acaso, daqui a uns 20 anos cometer mesmo um homicídio simples e ficar aqui registado. Que eu... Quando matares um gajo vai ser hilariante.
81:07
Sim, sim.
81:08
Ele já tinha avisado.
81:10
Tipo as previsões dos Simpsons, não é? Ele avisou. Se vocês mandassem na vossa vida desde o início, o que implica as escolhas que outras pessoas fizeram por vocês, que escolha tinham feito diferente?
81:24
Hum...
81:28
Não sei porque, lá está, nunca me foi imposto pelos meus pais grande coisa.
81:33
Tinhas ido aprender violoncelo, por exemplo.
81:36
Sim, sim, claramente isso. Também não queria aprender violoncelo. Não tenho assim uma boa pesta. Tu tens?
81:46
Boa não, mas eu sinto... Poucas coisas me foram impostas. Podiam ter imposto uma ou outra, mas lá está. Essa violoncelo... Uma música que gostavas que... Sim, gostava de ter tido na música. Quando quis por mim...
82:02
Comprei um baixo e toquei três vezes e está lá a apanhar pó. Ou mesmo... Sim, sim. Comprei um baixo. Não estava à espera desta.
82:11
Não sabias isso sobre... Eu sinto que vocês vieram aqui também descobrir coisas um sobre o outro.
82:15
Muito sobre nós. É assim.
82:17
Então é preciso de conversar mais vocês os dois, um com o outro. É possível.
82:20
Essa coisa da masculinidade, da amizade tóxica masculina não está... Isto também não é coisa que dê para... Quer dizer, agora vamos fazer terapia de casal de amizade. Também não é uma coisa que fizemos aqui um pouco.
82:29
Temos mais curiosidade um sobre o outro.
82:32
Somos assim.
82:33
E para terminar a pergunta deste podcast, o que é que manda em vocês?
82:39
Epá, agora são as contingências familiares. Tem que ser, tem que ser. De resto, ninguém. Ou sabe quem é que manda? Não, já sei.
82:49
É o público.
82:51
ao público que manda. Enquanto o público continuar do meu lado e interessado nas gargalhadas que lhes provoco, cá estarei para continuar a minha ambição. Portanto, quem manda a mim é o grande público.
83:12
Depois disto, Manel, não sei que resposta. O que é que manda em ti, Manel Cardoso?
83:16
É o facto de ter convencido uma outra pessoa que ia conseguir fazer isto que eu faço com consistência. É sempre preciso haver alguém que podemos desiludir para nos constranger a fazer as coisas. Isso é bom.
83:37
Sempre fugir da desilusão.
83:38
Muito bem. Muito obrigada, Diogo e Manel. Podem levar as garrafas convosco.
83:42
Excelente, excelente.
83:44
E podem personalizar garrafas e outras coisas. Passas aí ao teu colega.
83:48
Muito obrigado, colega. Isso. Muito obrigado.
83:50
Para claro, deixarem mais necessário para os constrangimentos do dia-a-dia. Muito obrigado.
83:57
Obrigado.
83:57
Obrigado.
84:07
Here I stand, one girl among many.